domingo, 10 de abril de 2011

Bloco Gêmeo (Twin Block).

Não se trata de material de construção nem daquele grupinho no seu bairro que anualmente insiste em 'pular' o carnaval, mas sim de um aparelho ortopédico. É utilizado por ordotontistas na correção da mandíbula nos casos em que esta se encontra retraída, comprometendo o encaixe das arcadas dentárias e, consequentemente, o perfil facial. Consiste-se em duas peças de resina, com garrinhas metálicas - uma encaixa na arcada superior e a outra na inferior (o meu é quase idêntico a esse, só que transparente):


O conjunto forma um bloco (daí o nome) e não permite que você feche a boca totalmente: uma saliência na peça inferior encaixa num espaço da superior, deixando um vão entre as arcadas - ao mesmo tempo, projeta a inferior pra fora. O bloco gêmeo (ou twin block) trava mandíbula nessa posição, fazendo com que, após o uso prolongado do aparelho, a mesma seja corrigida e encaixe corretamente na superior, harmonizando o perfil e a 'mordedura'. 
Na prática, todos considerariam o aparelho um instrumento de tortura ou artefato masoquista. Escolhi minha atual ortodontista justamente por ela usar esse método de correção (embora pareça não sou masoquista: foi pura necessidade mesmo).
Assim que coloquei a criança na boca, quase me arrependi: tentei falar, e as arcadas se desencontravam; parecia que estava tudo solto lá dentro. No início, quando 'articulava' qualquer frase, parecia uma vítima de AVC balbuciando - saía tudo embolado, quase ininteligível. Detalhe: preciso usar a belezoca por 1 ano - o tempo TODINHO - senão não corrige a mandíbula lazarenta. Felizmente posso tirar pra comer, já que as peças são móveis. Na verdade, mastigar com esse bagulho na boca é impossível: no máximo, você 'amassa' a comida. Além disso, metade dela fica parada por entre as partes (de vez em quando bate a preguiça e, se vou comer algo mole, nem tiro - por isso sei como é a situação). Mascar chiclete nem pensar: nas duas vezes em que tentei, a goma (adivinha) grudou nas peças. 
A maioria das pessoas não consegue usar o bloco gêmeo (por motivos implícitos). Um conhecido me disse que a esposa dele tentou, tentou - mas a caixinha plástica acabou usando o bloco mais do que a mulher (e nela o pobre deve permanecer, sepultado até hoje). Usei um aparelho antes desse (não muito melhor); um expansor. Era fixo no céu da boca (horrível pra comer, precisava LITERALMENTE de um canudinho pra limpar o que ficava parado entre ele e o céu). Vinha com uma 'chave' que, diariamente, tinha de ser acoplada num buraquinho duma 'manivela' no centro do aparelho e girada - a cada giro, ele se expandia em alguns milímetros nas laterais, gradualmente alargando a arcada superior e fazendo com que os dentes amontoados ganhassem espaço pra se alinhar (sem necessidade de extração). Hoje, fora o bloco, ainda uso o aparelho convencional - com 'bráquetes', elásticos e tudo mais - ou seja: minha boca mais parece um canteiro de obras. Assim vai ser até outubro, previsão pra se livrar de todos os 'adendos' e enfim readquirir a liberdade bucal. 
Confesso que o bloco gêmeo está longe de ser 'confortável', mas tenho experiência em aparelhos 'ortorturadores': fora o expansor, havia usado outros na infância: móvel, 'freio de burro', etc etc - além disso, possuo boa resistência a 'métodos de flagelação'. Acabei me adaptando: com o tempo, deixei de falar o idioma do derramês e me comunico normalmente. Tirando o fato de que às vezes minha aparência me lembra a cria do Frankeinstein (o bloco deixa meu queixo 'protuberante'), até esqueço do aparelho. Pra quem nunca me viu antes sem, a diferença nem é tão evidente (embora não tire fotos usando o aparato; fica esquisito).
Há quem deva estar se perguntando; 'mas não existe um jeito menos trabalhoso e demorado pra arrumar um 'queixo afundado'??'. Sim, existe - cirurgia. Até saber da existência do bloco, todo ortodontista me dizia que minha única (falta de) opção seria corrigir o raio da madíbula retraída através duma cirurgia que custaria APENAS uns 20.000 reais (ou seja: NÃO seria). O valor em si já tornaria a intervenção inviável; além disso o procedimento em nada me agradou: seria preciso cerrar e puxar a mandíbula pra fora - e um looongo, penoso pós operatório. AINDA que tivesse condições de arcar com essa opção, seria MUITO mais complicada - e não tão mais rápida - que o bloco gêmeo. Até tinha noção de como era, mas não sabia dos 'pormenores' da operação até que, coincidentemente, no meu último emprego conheci uma garota com o mesmo problema (na verdade, um pouco pior) - e que iria realizar a tal cirurgia. 

Eis os procedimentos:
"Ah, então; primeiro eles cerram a mandíbula aqui, na junção com o crânio, pra puxar ela pra fora - mas como a arcada superior não vai encaixar na inferior por que a primeira tá estreita, o cirurgião tem que cerrar o osso do crânio no meio, aqui no céu da boca; é pra abrir o osso e alargar o espaço né. Aí depois vão enfaixar tudo aqui, em volta na cabeça, e deixar só um FURINHO no gesso, onde fica a boca (sim, falar está fora de cogitação), pra caber um CANUDINHO - é pra eu poder comer e beber nele (comer??). Tem que esperar DOIS MESES assim, engessado, pra colar os ossos cerrados. Vou ter que comer só liquidos - mas ainda, depois que eu tirar tudo - e isso se o médico achar que tá tudo bem coladinho - só vou comer papinhas porque não vou poder mastigar por mais TRÊS MESES."

Show de horror (olha que estou acostumada com essas coisas, tenho estômago de avestruz e não costumo me impressionar com 'tripas' e afins). E ainda nem mencionei as cicatrizes e o inchaço horrendo que ficaram no rosto (eu mesma não vi porque já havia saido do trabalho, me contaram depois). Ainda por cima, ela iria fazer a cirurgia pelo SUS (óbvio que não poderia pagar). Ahem, SUS é aquela coisa suuuuuuuper-segura e confiável sabe; quase nunca amputam o braço errado ou esquecem instrumentos cirúrgicos dentro de você após o término da operação. Mas peraí que tem mais: minha ortodontista disse que, em alguns casos, a mudança radical no rosto pode causar um trauma, pois quando tira o gesso a pessoa não se reconhece (ao contrário da metamorfose gradual com o bloco gêmeo, na operação ela é instantânea): "uma mulher ficou paralítica por 6 meses com o choque", contou ela sobre uma conhecida que realizara a cirurgia. 

Ah tá.

Vai me dizer que, depois de tudo isso, não vão mudar para sempre a visão injustiçada sobre o bloquinho gêmeo e me dar razão por ser masoquista - opa, digo, por ter votado nele ao invés da cirurgia.